Posts com a tag: crônicas e contos
set
2008
jul
2008

O Graveto era muito, muito seco, gostava de sertanejo e tinha um caderno com foto do KLB. A Formiga já era meiga, louca por Bon Jovi, e beijava o pôster do Chorão. A Vaca queria ser a Avril Lavigne, mas costumava ouvir Legião Urbana.
Foi há muito tempo atrás, mas ninguém nunca descobriu a quem culpar, talvez tenha sido o destino ou talvez a Mãe Natureza, mas o fato é que os três acabaram indo parar na mesma fazenda.
A Vaca sorriu para a Formiga e disse “Muuu!“, a formiga logo gostou dela. O Graveto não gostava da Vaca, vivia a resmungar: “Aquela vaca!“. E a Vaca, por sua vez, achava o Graveto e a Formiga um tanto quanto engraçados.
jun
2008
Ter que (tentar) acordar numa gostosa manhã gelada de 12ºC à s seis da manhã; sair de casa e voltar por ter esquecido alguma coisa; ir para o ponto e sempre perder o ônibus por questões de segundos; esperar minutos pelo próximo ônibus brigando com o vento fustigante que assola meu bairro; enfrentar o empurra-amassa para subir no coletivo; enfrentar, por mais de 50 minutos, o combo-empurra-amasssa dentro do coletivo; chegar na universidade sempre atrasada; enfrentar o olhar de reprovação de alguns professores – que provavelmente não tiveram que enfrentar quase nenhuma das etapas anteriores, principalmente o combo-empurra-amassa; ter que aguentar aulas chatas sobre assuntos desinteressantes; suportar todos os professores mandando fazer pseudo-seminários sobre todas as bobagens possÃveis que aparecem na frente deles – queridos professores, se eu quisesse aprender a dar aula estaria fazendo uma licenciatura; passar raiva com outras pessoas; criar antipatia pelo curso que faço ao ouvir merdas cotidianas; sair da universidade à s 12h40, com o estômago reclamando; ser, à s vezes, liberada à s 12h e ter que enfrentar o super-combo-empurra-amassa para entrar no ônibus com os desesperados alunos da Agrotécnica que teimam em correr como loucos quando chega o D-30; enfrentar, por mais de 50 minutos, a gritaria dentro do ônibus.
mar
2008
Tudo por quinze minutos de fama? Não sejamos modestos! Alguns têm mais, alguns menos: eu já contabilizo 19 anos de fama. É que TV, cinema, rádio, isso tudo é só metáfora. Palco de verdade é a tal da vida e, aqui, sim, vale tudo. Vale até acordar de madrugada, enfrentar congestionamento e dar duro o dia todo pra poder comprar pão quando chegar a noite. Nós, artistas, nos viramos com nossos próprios escândalos para contracenar com todos que nos rodeiam e escrever nosso final feliz.
Famoso de verdade é aquele que dá oi para o vizinho, que deseja bom dia para o padeiro e para o cobrador do ônibus, é quem ri com os casos do dono do barzinho e faz amigos na fila do banco. Famosos da vida real vivem sob a luz do holofote maior – o Sol – e, ao contrário dos pseudo-artistas da mÃdia, quando vêem o holofote se apagar é que começam a apresentar seus maiores shows. Aqui só não vale ser infeliz, afinal, brincando com as palavras do Lessa: a gente não nasce, estréia.
fev
2008
Os dedos são os braços pelos quais as mãos se abraçam à procura de proteção. No aperto o corpo sabe que encontrou abrigo, acalenta-se e se envolve, entrega-se porque sabe que possui o direito de se fortalecer.
Mãos se unem para abençoar, mãos se unem para buscar forças, mãos se unem para passar confiança, mãos se unem para evitar quedas e para guiar caminhos, mãos se unem para construir correntes, para orações, para dançar cantigas, valsas, forrós e tangos.
As mãos são os laços pelos quais os homens se amarram, as unhas são as promessas não ditas e os calos são as dores não choradas. Em cada fiapo e em cada cutÃcula escondem-se segredos e juras, tantas juras quanto as linhas que marcam estes dedos. Nas palmas, que ciganas tentam decifrar, a esperança de segurar amores e futuros vãos. Cada homem, uma digital, na certeza da singularidade, na certeza de ser único no mundo.
Quando duas digitais se encontram e se encantam, são estas mesmas mãos que se unem para formar o que os homens apelidaram de amor; são estes mesmos dedos que se coroam para o que se diz eternidade. Benditos sejam os homens que, entre tantas digitais, encontram aquela lhe ampara.
dez
2007
Amanda nunca entendeu a ordem como as coisas acontecem. Ela sempre achou que a vida era uma bagunça danada e que a mãe dela não podia reclamar da sua pontualidade justamente por isso. Nos últimos dias, ela andava reparando como tudo costuma vir exatamente na hora errada.
Por exemplo, Amanda sempre desejou passear na praia com suas meias azuis, mas a viagem para praia chegou exatamente dois dias depois de Amanda perder suas meias. E ninguém nem podia argumentar dizendo que esse era um caso raro, porque ela tinha uma grande lista de casos assim, todos recentes – e dolorosos.
Agora ela começava a se perguntar se a culpa era dela, que costumava planejar coisas distantes, ou da vida mesmo, que gostava de rir da sua cara pelos cantos.
Quem é que pode saber?..
dez
2007
É noite, madrugada. Na surdina ela se levanta, se move paulatinamente. Na ponta dos pés alcança o trinco, abre devagar. O rangido é baixo e longo… baixo e longo… baixo, quase um sussurro. Alguém se mexe no quarto ao lado. Estanca. Ouviram? Alguns segundos de respiração presa. O silêncio retoma a escuridão.
A pouca luz – quase uma vela – ilumina o caminho: um celular. Tempos modernos; apetrechos modernos; contos não tão modernos. Ela continua. Os pés dançam, os olhos piscam e o coração nunca pára.
Algo arranha o teto. O mundo é dos ratos; dos homens, dos medos. O mundo é da gente, mas sempre é mais dos outros. O medo também é da gente, mas também sempre é mais dos outros. Ela continua.
A porta. Longe a porta está, parada, esperando. A porta sempre espera, ainda que não seja percebida, ainda que não esperemos que ela nos espere lá. A porta raramente se abre sozinha e, por isso, ela continua.
dez
2007
Vou te contar um segredo: quanto mais a gente tem a dizer, menos a gente diz. As palavras ficam brigando umas com as outras e, em meio a tanto caos, a boca se fecha e os dedos paralisam.
As vencedoras do combate acabam sendo sempre as palavras mais bizarras e com menos sentido na situação – acho que porque as outras não dão muita importância à elas e acabam deixando-as passar. Depois que estas aà passam, o estrago já está feito. As outras continuam se matando, você continua com a vontade ululante de gritar e ainda acaba com um texto completamente insÃpido nas mãos, feito esse.

























