Posts com a tag: crônicas e contos

07
set
2009

Diálogo com o Diretor

Independência do Brasil

- Desculpe quebrar o silêncio, mas é bom que seja agora.
- Assim, do nada?
- Alteza, ninguém precisa realmente do fato se existe a repercussão.
- Vamos naquela de uma mentira contada mil vezes?
- Ou bem mais.
- Mais?
- Vamos pros livros de história! Pras páginas da internet! Conseguiremos uns quadros, umas pinturas, e logo não existirá ninguém que não saiba.
- Música também. Quero música.
- Certo, anotarei, mas pode fazer logo? Ainda tenho a Proclamação da República pra dirigir.
- E como faço?
- Grita logo e pronto.
- Não precisamos de um pouco mais de ambientação?
- Vossa alteza quer o quê? Holofotes e transmissão ao vivo?
- YouTube já bem basta.
- Pois bem, Alteza, agora é hora. A câmera já está ligada.
- Dá pra ajeitar meu cabelo no Photoshop?
- O que Vossa Alteza quiser…
- Sabe, eu estava pensando. A gente precisa de mais efeito na frase.
- ?
- As pessoas gostam de violência e sexo. Se só declarar assim do nada não vai vender.
- O que sugere?
- Impacto, ameaça e sensualidade.
- Mas tem que passar pela censura.
- Só morte basta então.
- Certo. Agora.
- Já?
- Antes que o telefone aponte novamente o Deodoro na linha…
- É, ninguém merece aquele barbudo.
- Vamos? 3… 2… 1…
- INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

E foram milhares os corpos no chão.

Fantástico mundo da Emi
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12
jul
2009

Orgânico

Ele era um pé. Ela era toda coração. Ele gostava de estar em terra firme; gostava de parar e ponderar. Ela tinha que se manter em movimento; bombeava fluidos a cada instante. A comunicação entre eles às vezes sofria interferências. Ele tinha ciúmes por dividi-la com os outros. Ela, por sua vez, sabia que ele também se dividia, só menos descaradamente.

O que o Pé não percebia era que o Coração se mantinha em movimento apenas por ele, nada mais. Mesmo que sua tarefa se ampliasse, ela sabia que seria unicamente dele se pudesse. Queria provar isso, mas não sabia como.

Ela perdoava todas as vezes em que ele corria e ela precisava acelerar-se para acompanhá-lo. Algum erro dela, no entanto, seria imperdoável. No fundo, queria ser apenas o outro pé. Lado-a-lado. Ainda que se desencontrassem em várias caminhadas, poderiam parar juntos, como duas metades daquele inteiro.

Algumas vezes descia até o estômago para estar mais próxima. Outras vezes parecia ir parar na mão de tão perdida. Quando desencontrava o ritmo, desesperava-se. Condenada a ser coração para o resto da vida, ela apenas continuava seu trabalho. Batendo em si mesma. Em movimento.

Não o culpava, sabia que era seu destino.

Fantástico mundo da Emi
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23
mai
2009

Dose diária de realidade

Segunda, terceira, quarta opção… sempre. Acostumou-se, ainda que não deixasse de lhe doer. Era comum que fosse lembrada, mas nunca a queriam tão bem. Podiam enxergá-la, mas só se aprendia a gostar dela – e aprender lhe demorava, até machucava.

Não era do tipo a ser convidada, nem do tipo a ser notada, nem do tipo a ser escolhida, nem do tipo a ser preferida. Não se esforçava mais, esperava o dia em que alguém a escolhesse simplesmente. Súbito; primeiro; lugar.

Fantástico mundo da Emi
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23
abr
2009

Gira-gira

Drop flowers, not bombs - Jogue flores, não bombas!

Girabéia nasceu num dia morno, e dizia que esse era o motivo por gostar mais da rotação do que da translação. As pessoas diziam que era maluca, a começar pelo nome:

- Girabéia-girafa!
- Girabéia-geléia!
- Desde quando Girabéia é nome de gente?

Por essas e outras, começou a achar que o mundo girava ao redor de si mesma. Eu não a culpo.

Girabéia jurava saber o sentido das coisas e, quando não sabia, dava o sentido que viesse na mente. Nos momentos de solidão, Girabéia gostava de… girar. Também gostava de girassóis: dizia ter sido um deles em outra vida.

Aos dezessete, em um momento de profunda contemplação sobre o existencialismo, Girabéia concluiu que era isso mesmo e ponto. O resto da história vocês já conhecem.

Fantástico mundo da Emi
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06
mar
2009

Se ela fosse um peixinho

Peixe - Tancredo Neves, Vitória da ConquistaDébora era pequena e sem ritmo. Sem ritmo, entenda, não era falta de atividade, mas sobra. Sobrava tanto movimento na pequena que não havia ritmo nenhum, só bagunça, só zuada. Naquele dia, o céu estava limpo e a tarde estava bem no meio.

O céu azul, jurava a menina, só poderia ter um propósito: era tática de mãe para manter criança distraída. Quando Débora olhava para aquela “azulidão” toda só sentia vontade de brincar de ser peixe. Era peixe em toda tarde de sábado e em todo feriado de calor. Era nos sábados porque, jurava ela, nunca tinha visto um 7º dia sem céu limpo – apesar de todos só não discordarem disso para não sofrerem com sua teima. E, nos feriados, porque dia de semana tinha escola e na escola ninguém mais queria ser peixe como ela.

Só que, naquele carnaval, Débora decidiu que venceria. Ia trapacear. Não ia ser peixe e iria descobrir o que sua mãe tanto queria esconder dela. Como seria, afinal, o calor de verdade? Hoje esse mistério acabaria. Não olharia o céu, e, se por algum acidente, seu olhar cruzasse a falta de nuvens, ela ia fazer de conta que era tudo bege. E bege era feio, feio, e parecia grama seca, que dá coceira na gente.

Fantástico mundo da Emi
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13
nov
2008

Procura-se minha Esperança

Começou como um conto de fadas. A brisa leve entrava pela janela, movia o cata-vento em cima da escrivaninha e acabou trazendo consigo um barulho de asas. A princípio achei que era minha imaginação, mas repetiu-se e repetiu-se… Foi assim. Ela entrou pela janela numa noite em que eu não estava muito bem. Lá estava eu, com minha fé machucada, enquanto ela pulava agitadamente pelos espaços do meu quarto. Talvez quisesse chamar minha atenção. A minha descrença e a solidão já eram tamanhas que resolvi dar um pouco do que pedia.

Sorri por alguns segundos, dizem que a esperança traz consigo soluções. Acreditei por alguns minutos até perceber o quanto ela era pequena, frágil e, de tão inquieta, deduzi que não estava bem. Lamentei comigo mesma. Era isso… Tudo estava tão errado que até a esperança que me havia sido enviada estava machucada.

Podia ter tido qualquer reação. Podia ignorá-la, espantá-la, tentar incorporá-la completamente. E tudo que consegui fazer foi ficar olhando, olhando, até começarmos a conversar. Não que ela fosse de muitas palavras, pra ser sincera, não disse nada. Mas entendi que seu silêncio era diferente de muitos outros silêncios aos quais me habituei. Ela me ouviu atentamente até que entendi o que devia ser feito. Eu tinha que ajudá-la, tinha que fazer com que ao menos aquela esperança conseguisse sobreviver. Tarefa grande demais pra mim, talvez.

Fantástico mundo da Emi
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19
set
2008

Silêncio

Achava que tinha ficado muda. Encontrara repentina dificuldade para falar... Qualquer coisa que fosse saía como um ruído, embora seu esforço fosse traduzido em suor. Pelas tais glândulas sudoríparas do corpo foram escorrendo letras. Uma, duas, e logo podia enxergar uma frase. Na boca os ruídos continuavam indigestos, mas já compreendia alguns textos completos que pingavam e fediam. Ah, como fediam! Lembravam-na de que talvez fosse melhor ficar muda por algum tempo a mais. E inerte. Não queria mais suar. A compreensão da repulsa causada nos outros lhe veio à tona e, no fim, nem queria mais dizer. Nada.

Biscoito da sorte
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19
jul
2008

A vaca, o graveto e a formiga

A vaca, o graveto e a formiga

O Graveto era muito, muito seco, gostava de sertanejo e tinha um caderno com foto do KLB. A Formiga já era meiga, louca por Bon Jovi, e beijava o pôster do Chorão. A Vaca queria ser a Avril Lavigne, mas costumava ouvir Legião Urbana.

Foi há muito tempo atrás, mas ninguém nunca descobriu a quem culpar, talvez tenha sido o destino ou talvez a Mãe Natureza, mas o fato é que os três acabaram indo parar na mesma fazenda.

A Vaca sorriu para a Formiga e disse “Muuu!“, a formiga logo gostou dela. O Graveto não gostava da Vaca, vivia a resmungar: “Aquela vaca!“. E a Vaca, por sua vez, achava o Graveto e a Formiga um tanto quanto engraçados.

Fantástico mundo da Emi
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20
jun
2008

Isso me dá tique tique nervoso.

Ter que (tentar) acordar numa gostosa manhã gelada de 12ºC às seis da manhã; sair de casa e voltar por ter esquecido alguma coisa; ir para o ponto e sempre perder o ônibus por questões de segundos; esperar minutos pelo próximo ônibus brigando com o vento fustigante que assola meu bairro; enfrentar o empurra-amassa para subir no coletivo; enfrentar, por mais de 50 minutos, o combo-empurra-amasssa dentro do coletivo; chegar na universidade sempre atrasada; enfrentar o olhar de reprovação de alguns professores – que provavelmente não tiveram que enfrentar quase nenhuma das etapas anteriores, principalmente o combo-empurra-amassa; ter que aguentar aulas chatas sobre assuntos desinteressantes; suportar todos os professores mandando fazer pseudo-seminários sobre todas as bobagens possíveis que aparecem na frente deles – queridos professores, se eu quisesse aprender a dar aula estaria fazendo uma licenciatura; passar raiva com outras pessoas; criar antipatia pelo curso que faço ao ouvir merdas cotidianas; sair da universidade às 12h40, com o estômago reclamando; ser, às vezes, liberada às 12h e ter que enfrentar o super-combo-empurra-amassa para entrar no ônibus com os desesperados alunos da Agrotécnica que teimam em correr como loucos quando chega o D-30; enfrentar, por mais de 50 minutos, a gritaria dentro do ônibus.

Cotidianês
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06
mar
2008

Muito além dos outdoors

Tudo por quinze minutos de fama? Não sejamos modestos! Alguns têm mais, alguns menos: eu já contabilizo 19 anos de fama. É que TV, cinema, rádio, isso tudo é só metáfora. Palco de verdade é a tal da vida e, aqui, sim, vale tudo. Vale até acordar de madrugada, enfrentar congestionamento e dar duro o dia todo pra poder comprar pão quando chegar a noite. Nós, artistas, nos viramos com nossos próprios escândalos para contracenar com todos que nos rodeiam e escrever nosso final feliz.

Famoso de verdade é aquele que dá oi para o vizinho, que deseja bom dia para o padeiro e para o cobrador do ônibus, é quem ri com os casos do dono do barzinho e faz amigos na fila do banco. Famosos da vida real vivem sob a luz do holofote maior – o Sol – e, ao contrário dos pseudo-artistas da mídia, quando vêem o holofote se apagar é que começam a apresentar seus maiores shows. Aqui só não vale ser infeliz, afinal, brincando com as palavras do Lessa: a gente não nasce, estréia.

Fantástico mundo da Emi
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