Posts da categoria: Fantástico mundo da Emi

18
jan
2010

Agora era brisa

Houve um grande distúrbio, uma explosão incomum. Tudo o que ela sabia sobre todas as coisas tinha sido reduzido a cacos incoláveis. Parecia não haver recuperação ou salvação para as marcas da experiência pela qual passara…

Até que houve luz.

Luz fina e perturbadora. Decerto quase irreal. Depois de algum tempo, respirou aliviada, mas não precisava enganar ninguém. Não havia esquecido. Esquecer era desaprender; ela apenas estava transformando aquilo em lição.

Foi por conseguir manter a sanidade que ela passou a ter fé. E talvez isso já fosse motivo suficiente para tudo, mas havia algo mais. Aos poucos, tudo o que era uma ferida tornou-se um presságio: o mundo lhe daria algo muito maior.

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28
dez
2009

A curta história da menina que não sabia nadar

Logo pequena compreendeu as verdades que todos procuravam entender. Sem sentir a necessidade de explicar nada a ninguém, aborreceu-se sozinha com as respostas decepcionantes e deslumbrou-se sorrindo das que lhe fizeram exultar.

Na rebeldia da sua prematura adolescência condenou todo o mundo e negou as verdades que já havia encontrado. Fez julgamentos, contratou juízes e conquistou alguns dissabores para a vida inteira.

Mais tarde, fazendo as pazes com o destino, a vida lhe deu de volta as compreensões que já possuíra. Apreciava as coisas que lhe eram apreciáveis – e não fazia questão de agradar o que parecia descartável.

A forma como vivia a vida – com o desleixo próprio de quem sabe que o futuro lhe guarda coisas grandiosas – irritava algumas pessoas.

Quando alguma nova interrogação lhe aparecia, era comum entrar em quarentena, declarar suas próprias férias e adiar todos os compromissos que os outros viam como absurdamente inadiáveis. Nesse meio-tempo, mergulhava em reflexão profunda até encontrar a nova peça que percebera faltar em seu eterno quebra-cabeça.

Tendenciosa como um mergulho, ela costumava ir fundo em todas as suas crenças. E aí não havia onda que a pudesse carregar. Mas era burramente ética e comicamente correta. Só sobrevivia entre os espertos porque não tinha pressa.

Ela era pretensiosa e odiável. E não sabia nadar.

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24
dez
2009

Um (longo) conto de Natal

25 de dezembro pode ter todos os significados do mundo, mas para as crianças tudo isso se resume à madrugada mágica onde Papai Noel deixa os presentes da forma mais sorrateira possível. Para Elise, os presentes sempre apareciam no sapato ao lado da cama. É óbvio que ela nunca soube explicar como o bom velhinho entrava em sua casa, mas quem queria saber?

Apesar de lembrar-se apenas de um carro, uma batida e uma explosão, naquele Natal não foi diferente. A pequena Elise acordou perdida no tempo e, no momento exato em que se lembrou que dia era, pulou da cama para achar seu presente. O embrulho colorido estava em cima do sapato que usara na noite anterior. Sem dar-se ao trabalho de abrir, saiu rasgando o papel e encontrou logo a caixinha pequena.

O velhinho acertara novamente. Era o relógio que queria! Teve apenas tempo o suficiente para colocar o relógio no pulso. Saiu gritando pela casa para mostrar o presente aos pais.

Na nossa história não importa muito aquilo que aconteceu entre o tempo de abrir o presente e o de finalmente parar para admirá-lo. Tudo que você precisa saber é que, quando Elise finalmente se aquietou e parou sozinha no seu quarto para olhar as horas, deu-se conta de que o relógio andava ao contrário. E ela sabia o que isso significava.

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04
nov
2009

Jogo de cartas

Dorothy

Sapatos gastos, meias rasgadas. Um dia ela me disse qualquer coisa sobre um sonho dorothiano. Confesso que não sabia do que falava, não parecia ser o tipo de pessoa a ser compreendida.

Ela parecia travada da cabeça aos pés. Carregava consigo qualquer grande segredo – e parecia discutir o tempo todo com suas próprias certezas.

Jogava uma espécie de jogo de cartas muito exato, onde perdia ou perdia. Não fiz questão de questionar em nenhum momento qual a moral daquilo tudo, parecia haver um único motor na história: escolher a carta com a qual perdia menos.

Devo assumir que era um destino triste, e talvez por isso ela jogava tão vagarosamente… Havia mais de cinquenta por centro de chance de perder tudo. E ela, má jogadora, tendia sempre à carta errada.

Geralmente jogava sozinha. Parecia compreender a injustiça que seria convidar alguém para aquilo. Mas o jogo tinha coadjuvantes; todos que apareciam para sugerir uma carta ou outra, ou que se dispunham a dividir o momento exato da jogada com ela.

Num dos meus acessos de curiosidade, resolvi dar a entender que não compreendia o absurdo porquê de se sujeitar a isso sempre:

- É tudo um treino – ela disse, como se parecesse óbvio – para aprender a perder, e aprender a ficar mais forte. Será que não percebe que, se eu me render pra mim mesma, nunca poderei ganhar de alguém? Pouco importa o resultado, a questão é aprender a jogar.

Não, eu não disse mais nenhuma palavra. Essa rodada foi dela.

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24
out
2009

Pra frente

aniversario

Há um desespero descomunal que beira a transição; qualquer que seja. Um aniversário, um parto, uma morte – ou a entrada na faculdade, o fim do ensino médio… A loucura ronda a mudança.

Não é pelo início. O começo tem sabor doce, geralmente como o aroma de chiclete das roupas de bebê. Mas o fim, ainda que do seu inferno astral, carrega um peso incomparável.

Incomparável também é a sensação de borboletas no estômago com o peso das lágrimas que comumente caem com qualquer final. Ninguém parece acostumar-se ao fato de que as coisas que acabam trazem coisas que começam, em qualquer que seja a situação.

Os fins das novelas, por exemplo, sempre estão acompanhadas de algum casamento. Antes de ser um clichê, é um tapa na cara de todos – e ninguém sente. É a TV, sem nem querer, simbolizando um novo começo depois do fim. É a continuação. A gente não precisa ver o que aconteceu com o mocinho para sentir-se feliz pelo resto da vida que ele terá; a gente não precisaria ver nada do que se foi para sentir-se feliz pelo que veio depois. Quer seja a morte, quer seja a chegada dos vintes e poucos anos.

O amanhã é a única promessa que a gente tem. Foi meu pai que me disse um dia desses: nada que vai vir é longe. Longe são as coisas que passaram e que nunca voltaremos a viver. Tudo que está no futuro é muito perto.

Sabe o que isso significa? Que a morte está aqui na frente. Só nos resta saber viver.

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07
set
2009

Diálogo com o Diretor

Independência do Brasil

- Desculpe quebrar o silêncio, mas é bom que seja agora.
- Assim, do nada?
- Alteza, ninguém precisa realmente do fato se existe a repercussão.
- Vamos naquela de uma mentira contada mil vezes?
- Ou bem mais.
- Mais?
- Vamos pros livros de história! Pras páginas da internet! Conseguiremos uns quadros, umas pinturas, e logo não existirá ninguém que não saiba.
- Música também. Quero música.
- Certo, anotarei, mas pode fazer logo? Ainda tenho a Proclamação da República pra dirigir.
- E como faço?
- Grita logo e pronto.
- Não precisamos de um pouco mais de ambientação?
- Vossa alteza quer o quê? Holofotes e transmissão ao vivo?
- YouTube já bem basta.
- Pois bem, Alteza, agora é hora. A câmera já está ligada.
- Dá pra ajeitar meu cabelo no Photoshop?
- O que Vossa Alteza quiser…
- Sabe, eu estava pensando. A gente precisa de mais efeito na frase.
- ?
- As pessoas gostam de violência e sexo. Se só declarar assim do nada não vai vender.
- O que sugere?
- Impacto, ameaça e sensualidade.
- Mas tem que passar pela censura.
- Só morte basta então.
- Certo. Agora.
- Já?
- Antes que o telefone aponte novamente o Deodoro na linha…
- É, ninguém merece aquele barbudo.
- Vamos? 3… 2… 1…
- INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

E foram milhares os corpos no chão.

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01
set
2009

É só setembro.

Baby eu te espero para o chat das cinco

Bem vindos à Setembro. Sintam-se todos convidados a respirar mais, a brilhar mais, a acreditar mais e a ser mais. Convido todos aqueles que acham que de alguma forma podem mais a se darem direito a um novo começo. É um só mês, é só outro qualquer, mas se a gente puder fazer qualquer coisa por nós mesmos neste Setembro… ah, já não vai haver mais nenhum qualquer na frase.

Ao invés de desistir, vale chorar, limpar a alma e levantar a cabeça pra dar um passo a mais. E cada vez que você pensar em mais, pense em melhor. Faça-se mais, faça-se melhor. Dedique este nono mês a ajudar seus sonhos a caminharem, nem que seja apenas um passinho.

Setembro são cores, flores e, se você quiser, sorrisos. Não importa que a primavera chegue só lá no final – ou que, às vezes, nem chegue. O que importa é a promessa de que as flores irão florescer. Faça-se flor. Ou permita-se acreditar ser uma.

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20
ago
2009

Um gesto qualquer

Selfportrait, Porto Seguro - 2008

O pior é sentir-se pequeno pelo que deixam de fazer. Às vezes uma ação, uma reação, algo que fuja o comum ou que, ao menos, seja capaz de estreitar os laços. Afeto é mosaico que a gente junta com os dias, com as fases, com as caras que a lua mostra ou deixa de mostrar. Faz falta aquilo que não é dito, aquilo que não é imprevisto. E só resta o conformismo e o esperar que chegue… Resta o caminhar pela rua sem sentir-se novo ou maior, melhor ou disposto – só caminhar.

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