Posts da categoria: Fantástico mundo da Emi

24
dez
2009

Um (longo) conto de Natal

25 de dezembro pode ter todos os significados do mundo, mas para as crianças tudo isso se resume à madrugada mágica onde Papai Noel deixa os presentes da forma mais sorrateira possível. Para Elise, os presentes sempre apareciam no sapato ao lado da cama. É óbvio que ela nunca soube explicar como o bom velhinho entrava em sua casa, mas quem queria saber?

Apesar de lembrar-se apenas de um carro, uma batida e uma explosão, naquele Natal não foi diferente. A pequena Elise acordou perdida no tempo e, no momento exato em que se lembrou que dia era, pulou da cama para achar seu presente. O embrulho colorido estava em cima do sapato que usara na noite anterior. Sem dar-se ao trabalho de abrir, saiu rasgando o papel e encontrou logo a caixinha pequena.

O velhinho acertara novamente. Era o relógio que queria! Teve apenas tempo o suficiente para colocar o relógio no pulso. Saiu gritando pela casa para mostrar o presente aos pais.

Na nossa história não importa muito aquilo que aconteceu entre o tempo de abrir o presente e o de finalmente parar para admirá-lo. Tudo que você precisa saber é que, quando Elise finalmente se aquietou e parou sozinha no seu quarto para olhar as horas, deu-se conta de que o relógio andava ao contrário. E ela sabia o que isso significava.

Fantástico mundo da Emi
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04
nov
2009

Jogo de cartas

Dorothy

Sapatos gastos, meias rasgadas. Um dia ela me disse qualquer coisa sobre um sonho dorothiano. Confesso que não sabia do que falava, não parecia ser o tipo de pessoa a ser compreendida.

Ela parecia travada da cabeça aos pés. Carregava consigo qualquer grande segredo – e parecia discutir o tempo todo com suas próprias certezas.

Jogava uma espécie de jogo de cartas muito exato, onde perdia ou perdia. Não fiz questão de questionar em nenhum momento qual a moral daquilo tudo, parecia haver um único motor na história: escolher a carta com a qual perdia menos.

Devo assumir que era um destino triste, e talvez por isso ela jogava tão vagarosamente… Havia mais de cinquenta por centro de chance de perder tudo. E ela, má jogadora, tendia sempre à carta errada.

Geralmente jogava sozinha. Parecia compreender a injustiça que seria convidar alguém para aquilo. Mas o jogo tinha coadjuvantes; todos que apareciam para sugerir uma carta ou outra, ou que se dispunham a dividir o momento exato da jogada com ela.

Num dos meus acessos de curiosidade, resolvi dar a entender que não compreendia o absurdo porquê de se sujeitar a isso sempre:

- É tudo um treino – ela disse, como se parecesse óbvio – para aprender a perder, e aprender a ficar mais forte. Será que não percebe que, se eu me render pra mim mesma, nunca poderei ganhar de alguém? Pouco importa o resultado, a questão é aprender a jogar.

Não, eu não disse mais nenhuma palavra. Essa rodada foi dela.

Fantástico mundo da Emi
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24
out
2009

Pra frente

aniversario

Há um desespero descomunal que beira a transição; qualquer que seja. Um aniversário, um parto, uma morte – ou a entrada na faculdade, o fim do ensino médio… A loucura ronda a mudança.

Não é pelo início. O começo tem sabor doce, geralmente como o aroma de chiclete das roupas de bebê. Mas o fim, ainda que do seu inferno astral, carrega um peso incomparável.

Incomparável também é a sensação de borboletas no estômago com o peso das lágrimas que comumente caem com qualquer final. Ninguém parece acostumar-se ao fato de que as coisas que acabam trazem coisas que começam, em qualquer que seja a situação.

Os fins das novelas, por exemplo, sempre estão acompanhadas de algum casamento. Antes de ser um clichê, é um tapa na cara de todos – e ninguém sente. É a TV, sem nem querer, simbolizando um novo começo depois do fim. É a continuação. A gente não precisa ver o que aconteceu com o mocinho para sentir-se feliz pelo resto da vida que ele terá; a gente não precisaria ver nada do que se foi para sentir-se feliz pelo que veio depois. Quer seja a morte, quer seja a chegada dos vintes e poucos anos.

O amanhã é a única promessa que a gente tem. Foi meu pai que me disse um dia desses: nada que vai vir é longe. Longe são as coisas que passaram e que nunca voltaremos a viver. Tudo que está no futuro é muito perto.

Sabe o que isso significa? Que a morte está aqui na frente. Só nos resta saber viver.

Fantástico mundo da Emi
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07
set
2009

Diálogo com o Diretor

Independência do Brasil

- Desculpe quebrar o silêncio, mas é bom que seja agora.
- Assim, do nada?
- Alteza, ninguém precisa realmente do fato se existe a repercussão.
- Vamos naquela de uma mentira contada mil vezes?
- Ou bem mais.
- Mais?
- Vamos pros livros de história! Pras páginas da internet! Conseguiremos uns quadros, umas pinturas, e logo não existirá ninguém que não saiba.
- Música também. Quero música.
- Certo, anotarei, mas pode fazer logo? Ainda tenho a Proclamação da República pra dirigir.
- E como faço?
- Grita logo e pronto.
- Não precisamos de um pouco mais de ambientação?
- Vossa alteza quer o quê? Holofotes e transmissão ao vivo?
- YouTube já bem basta.
- Pois bem, Alteza, agora é hora. A câmera já está ligada.
- Dá pra ajeitar meu cabelo no Photoshop?
- O que Vossa Alteza quiser…
- Sabe, eu estava pensando. A gente precisa de mais efeito na frase.
- ?
- As pessoas gostam de violência e sexo. Se só declarar assim do nada não vai vender.
- O que sugere?
- Impacto, ameaça e sensualidade.
- Mas tem que passar pela censura.
- Só morte basta então.
- Certo. Agora.
- Já?
- Antes que o telefone aponte novamente o Deodoro na linha…
- É, ninguém merece aquele barbudo.
- Vamos? 3… 2… 1…
- INDEPENDÊNCIA OU MORTE!

E foram milhares os corpos no chão.

Fantástico mundo da Emi
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01
set
2009

É só setembro.

Baby eu te espero para o chat das cinco

Bem vindos à Setembro. Sintam-se todos convidados a respirar mais, a brilhar mais, a acreditar mais e a ser mais. Convido todos aqueles que acham que de alguma forma podem mais a se darem direito a um novo começo. É um só mês, é só outro qualquer, mas se a gente puder fazer qualquer coisa por nós mesmos neste Setembro… ah, já não vai haver mais nenhum qualquer na frase.

Ao invés de desistir, vale chorar, limpar a alma e levantar a cabeça pra dar um passo a mais. E cada vez que você pensar em mais, pense em melhor. Faça-se mais, faça-se melhor. Dedique este nono mês a ajudar seus sonhos a caminharem, nem que seja apenas um passinho.

Setembro são cores, flores e, se você quiser, sorrisos. Não importa que a primavera chegue só lá no final – ou que, às vezes, nem chegue. O que importa é a promessa de que as flores irão florescer. Faça-se flor. Ou permita-se acreditar ser uma.

Fantástico mundo da Emi
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20
ago
2009

Um gesto qualquer

Selfportrait, Porto Seguro - 2008

O pior é sentir-se pequeno pelo que deixam de fazer. Às vezes uma ação, uma reação, algo que fuja o comum ou que, ao menos, seja capaz de estreitar os laços. Afeto é mosaico que a gente junta com os dias, com as fases, com as caras que a lua mostra ou deixa de mostrar. Faz falta aquilo que não é dito, aquilo que não é imprevisto. E só resta o conformismo e o esperar que chegue… Resta o caminhar pela rua sem sentir-se novo ou maior, melhor ou disposto – só caminhar.

Fantástico mundo da Emi
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12
jul
2009

Orgânico

Ele era um pé. Ela era toda coração. Ele gostava de estar em terra firme; gostava de parar e ponderar. Ela tinha que se manter em movimento; bombeava fluidos a cada instante. A comunicação entre eles às vezes sofria interferências. Ele tinha ciúmes por dividi-la com os outros. Ela, por sua vez, sabia que ele também se dividia, só menos descaradamente.

O que o Pé não percebia era que o Coração se mantinha em movimento apenas por ele, nada mais. Mesmo que sua tarefa se ampliasse, ela sabia que seria unicamente dele se pudesse. Queria provar isso, mas não sabia como.

Ela perdoava todas as vezes em que ele corria e ela precisava acelerar-se para acompanhá-lo. Algum erro dela, no entanto, seria imperdoável. No fundo, queria ser apenas o outro pé. Lado-a-lado. Ainda que se desencontrassem em várias caminhadas, poderiam parar juntos, como duas metades daquele inteiro.

Algumas vezes descia até o estômago para estar mais próxima. Outras vezes parecia ir parar na mão de tão perdida. Quando desencontrava o ritmo, desesperava-se. Condenada a ser coração para o resto da vida, ela apenas continuava seu trabalho. Batendo em si mesma. Em movimento.

Não o culpava, sabia que era seu destino.

Fantástico mundo da Emi
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23
mai
2009

Dose diária de realidade

Segunda, terceira, quarta opção… sempre. Acostumou-se, ainda que não deixasse de lhe doer. Era comum que fosse lembrada, mas nunca a queriam tão bem. Podiam enxergá-la, mas só se aprendia a gostar dela – e aprender lhe demorava, até machucava.

Não era do tipo a ser convidada, nem do tipo a ser notada, nem do tipo a ser escolhida, nem do tipo a ser preferida. Não se esforçava mais, esperava o dia em que alguém a escolhesse simplesmente. Súbito; primeiro; lugar.

Fantástico mundo da Emi
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23
abr
2009

Gira-gira

Drop flowers, not bombs - Jogue flores, não bombas!

Girabéia nasceu num dia morno, e dizia que esse era o motivo por gostar mais da rotação do que da translação. As pessoas diziam que era maluca, a começar pelo nome:

- Girabéia-girafa!
- Girabéia-geléia!
- Desde quando Girabéia é nome de gente?

Por essas e outras, começou a achar que o mundo girava ao redor de si mesma. Eu não a culpo.

Girabéia jurava saber o sentido das coisas e, quando não sabia, dava o sentido que viesse na mente. Nos momentos de solidão, Girabéia gostava de… girar. Também gostava de girassóis: dizia ter sido um deles em outra vida.

Aos dezessete, em um momento de profunda contemplação sobre o existencialismo, Girabéia concluiu que era isso mesmo e ponto. O resto da história vocês já conhecem.

Fantástico mundo da Emi
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06
mar
2009

Se ela fosse um peixinho

Peixe - Tancredo Neves, Vitória da ConquistaDébora era pequena e sem ritmo. Sem ritmo, entenda, não era falta de atividade, mas sobra. Sobrava tanto movimento na pequena que não havia ritmo nenhum, só bagunça, só zuada. Naquele dia, o céu estava limpo e a tarde estava bem no meio.

O céu azul, jurava a menina, só poderia ter um propósito: era tática de mãe para manter criança distraída. Quando Débora olhava para aquela “azulidão” toda só sentia vontade de brincar de ser peixe. Era peixe em toda tarde de sábado e em todo feriado de calor. Era nos sábados porque, jurava ela, nunca tinha visto um 7º dia sem céu limpo – apesar de todos só não discordarem disso para não sofrerem com sua teima. E, nos feriados, porque dia de semana tinha escola e na escola ninguém mais queria ser peixe como ela.

Só que, naquele carnaval, Débora decidiu que venceria. Ia trapacear. Não ia ser peixe e iria descobrir o que sua mãe tanto queria esconder dela. Como seria, afinal, o calor de verdade? Hoje esse mistério acabaria. Não olharia o céu, e, se por algum acidente, seu olhar cruzasse a falta de nuvens, ela ia fazer de conta que era tudo bege. E bege era feio, feio, e parecia grama seca, que dá coceira na gente.

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