
Sapatos gastos, meias rasgadas. Um dia ela me disse qualquer coisa sobre um sonho dorothiano. Confesso que não sabia do que falava, não parecia ser o tipo de pessoa a ser compreendida.
Ela parecia travada da cabeça aos pés. Carregava consigo qualquer grande segredo – e parecia discutir o tempo todo com suas próprias certezas.
Jogava uma espécie de jogo de cartas muito exato, onde perdia ou perdia. Não fiz questão de questionar em nenhum momento qual a moral daquilo tudo, parecia haver um único motor na história: escolher a carta com a qual perdia menos.
Devo assumir que era um destino triste, e talvez por isso ela jogava tão vagarosamente… Havia mais de cinquenta por centro de chance de perder tudo. E ela, má jogadora, tendia sempre à carta errada.
Geralmente jogava sozinha. Parecia compreender a injustiça que seria convidar alguém para aquilo. Mas o jogo tinha coadjuvantes; todos que apareciam para sugerir uma carta ou outra, ou que se dispunham a dividir o momento exato da jogada com ela.
Num dos meus acessos de curiosidade, resolvi dar a entender que não compreendia o absurdo porquê de se sujeitar a isso sempre:
- É tudo um treino – ela disse, como se parecesse óbvio – para aprender a perder, e aprender a ficar mais forte. Será que não percebe que, se eu me render pra mim mesma, nunca poderei ganhar de alguém? Pouco importa o resultado, a questão é aprender a jogar.
Não, eu não disse mais nenhuma palavra. Essa rodada foi dela.