Que fique bem claro desde a primeira linha deste texto: não tenho absolutamente NADA contra o Caio Fernando Abreu. Se você é fã do autor e se sentir atingindo de alguma forma por este artigo, leia e releia cuidadosamente para entender direitinho o que eu quero dizer.
A cada dez tweets da minha timeline, ao menos um é um retweet de alguma frase de Caio Fernando Abreu. E o mesmo acontece no Fotolog: há sempre uma frase do autor em algum caption. No Tumblr, suas idéias são textos soltos ou legendas de fotos. Acho interessante que a juventude tenha encontrado alguém que representou bem os seus sentimentos, mas também acho isso perigoso, muito perigoso.
Primeiro, me pergunto de onde surgiu o fenômeno. Foi praticamente assim: em um dia eu encontrava textos aleatórios e frases construÃdas pelos próprios autores dos sites; no outro, todos os lugares tinham frases com as mesmas iniciais – CFA.
É quase um vÃrus, uma febre. E a verdade é que ele escreveu coisas maravilhosas. Mas é um saco, definitivamente UM SACO, entrar em todas as redes sociais das quais você participa e encontrar sempre o mesmo autor.
Se eu quisesse acompanhar citações do Caio Fernando Abreu, eu seguiria os perfis que são dedicados a isso, leria seus livros ou procuraria por suas obras no Google. Simples. Aliás, eu seguia o @caiofabreu até poucas semanas atrás; antes de perceber que eu já seguia umas dez pessoas que tornavam isso completamente desnecessário. Elas já trazem tudo até mim, sem que eu peça, ou que me interesse.
Uso o CFA como exemplo porque são tantos os retweets de suas frases quanto é a constância com a qual ouço alguém reclamar que também não agüenta mais ver seu nome por aÃ.
Entendam: gostamos (muito) de Clarices, de Caios, de Alices, de Lewis, de milhares de obras e de autores interessantes. Mas também gostamos de pessoas com idéias próprias, com frases próprias, com pensamentos construÃdos por elas mesmas – ainda que sejam repetitivos. Sim, não importa se você quer falar sobre a mesma coisa que um determinado autor já escreveu, nem importa que você não consiga dizer tão bem assim, contanto que você ao menos tente se expressar.
Tenho medo de uma geração que tem preguiça de tentar dizer o que pensa. Tenho medo de uma geração que sobrevive de citações.
Febres como essas podem causar um comodismo que não combina conosco. Nós não somos assim. Somos uma geração de criadores, de produtores de conteúdo. Nós temos o poder e o direito de dizer o que queremos para o mundo inteiro… Tanta gente lutou por isso, não é justo que desperdiçemos essa conquista repetindo, repetindo, repetindo.
Tenha respeito pelos seus leitores, porque, na maior parte dos casos, eles querem ler VOCÊ e não apenas os autores dos quais você gosta. É SUPER válido, aliás, é maravilhoso que você se identifique com músicas e com textos, é maravilhoso que você compartilhe isso, é ótimo que leia e que aumente a sua bagagem cultural. Mas a sua bagagem também merece ser usada. Tenho certeza que todos os grandes autores preferem (ou prefeririam) leitores que pensam e CRIAM, ao invés de leitores que simplesmente copiam o que eles disseram.
“Eu sei que você pode mais.”

























babi
eu acho que o grande problema mesmo é o uso de citações fora de contexto. me parece tão simplista retuÃtar frases da clarice, por exemplo, sem ler a obra dela… é como se a obra fosse reduzida a uma frase quando na verdade as coisas são muito mais complexas do que um pensamento jogado no mundo. acho ruim porque acaba-se nos tornando simplistas e pensa-se que resumir faz sentido; não acho que faça.
Késia
eu gosto do caio, da clarice e de grandes autores como eles; as vezes lendo seus textos é como se estivesse diante de algo feito pra mim. mas também não gosto dos ctrls+cs sem que haja um verdadeiro entendimento e admiração por parte do leitor. digo admiração porque muitas das pessoas que usam as frases do caio ou da clarice, por exemplo, usam-nas como uma capa, querendo demonstrar um conhecimento que na verdade não existe. são os pseudo-culturais que estão tão presentes na nossa convivência atual.
Iemai
maio 23rd, 2010
às 15:51
Verdade!!! Isso também irrita muito :) Gente que usa os autores só pra fazer pose e não por identificação. Acho que nesses casos a coisa se torna mais drástica e antipática ainda.
mundobrel
Então vamos lá…
Sobre o twitter eu fico super puto tb!
Mas o problema nem são as frases cheias de pensamentos…o problema é a narcisa e o hugo gloos ( nem sei como se escreve).
Tem gente no meu twitter que só retuita coisas dele o dia inteiro!
Se pelo menos as pessoas falassem algo de interessante e “retuitassem” outras coisas… mas tem gente que só usa o twitter para divulgar as coisas do hugo gloss e da narcisa ¬¬ me irrito meRRRmo!
E sobre o comodismo das pessoas, tb fico preocupado. Igual o que esta acontecendo com o tumblr!
Muitas pessoas que tiravam fotos legais abandonaram o fotolog e vivem só de reblogar fotos dos outros.
Poxa vida, reblogue mas tire suas propias fotos tb! ;~ ( desabafei. hahahaha)
Essa nova geração de “blogueiros” está muito preguiçosa!
É isso!
bjo para a minha mãe para meu pai e para a Sasha!
Iemai
maio 23rd, 2010
às 15:56
hahaha Ô, Brel! É isso mesmo! Muitas pessoas não se dão conta de que estão desperdiçando o potencial delas vivendo só de retweet e de reblog. O que custa tentar viver com um pouquinho mais de equilÃbrio nisso também, né? Certeza de que só ia fazer bem pra elas… :/
Imagina se o próprio CFA ou a Clarice fossem viciados em internet e só reproduzissem? Aposto que existe um monte de gente talentosa que não se descobriu e que, pelo jeito, não vai se descobrir nem tão cedo.
Luiza
Publicar uma citação com a qual voce concorda, vá lá…mas o grande problema (na minha opnião) é que tem gente que posta um texto da Clarice Lispector (por exemplo) sem nem saber quem ela é. É isso que me deixa puta. Quando eu publico a frase de alguém, é porque, em primeiro lugar aquilo teve um sentido em algum momento da minha vida. Em segundo porque eu admiro o autor daquela frase, e terceiro porque eu conheço a obra dele.
E concordo com voce: não é de hoje que eu vejo que as pessoas só sabem copiar.
Thaty.
Ah, Emi, tirou as palavras da minha boca! Nossa, isso realmente se tornou insuportável e, apesar de eu ter motivos pessoais pra detestar essa repetição demasiada, não deixa de ser insuportável ver o mesmo “plágio” por toda parte. (E hey, obrigada pelos elogios no fotolog *-* Eu responderia se o seu aceitasse comentários :~ Mas deixo por aqui mesmo :3).
Beijo, bela iniciativa! Espero que teu artigo faça as pessoas refletirem.
Janu
kkkkk
Falou bonito.
Acontece muito mesmo isso. Sem falar da Martha Medeiros. Eu acho os textos dela tão “solteirona desesperada procura esperanças além-macho”. Mesmo assim é febre de citações. Eu não cito livros por ser meio orgulhoso, haha. Mas adoro citações de filmes. Eu acho diferente.
Sim, já lhe disseram isso mas seu site/blog é bem gostoso, viu? aiuhauhua =*
Iemai
maio 23rd, 2010
às 16:09
Aaah, eu mesma vivo usando música, livro, filme e tudo que é coisa no meu fotolog e até em posts por aqui… Mas nem por isso deixo de fazer. :/ Acho que esse é que é o ponto.
haha Valeu, Janu :D
michelli
acho super pertinente, mas sempre tem gente que vai copiar, nãosó esse Caio, que nunca ouvi falar, mas Bob Marley, Guevara, e outros tantos que falam coisas bonitas ou relevantes…
gabi
Adoro ver que não sou eu a única preguiçosa com citações de CFA! Acho que, no princÃpio quando fiquei encantada com o que ele escrevia – e o fez com delicadeza irretocável – era bom pensar que meninas estavam realmente se interessando por algum tipo de leitura. Houve também a febre de Clarice. Mas ela cedeu lugar a Caio.
Mas que importa isso tudo, se as citações não mudarem ou transformarem mentes infantis? Acho que vai passar isso também e, morro de vontade de que não descubram CecÃlia Meireles ou Mário Quintana! Não descubram porque, se o fizerem, ficarei um pouco frustada com os milhões de reteweets, ou postagem em tumbrl que vão aparecer soltos e sem o devido cuidado como fizeram com a sutileza de cada vÃrgula até dos meus amores..
Emi linda :***
Bel Campos
na semana de arte moderna de 22, uma galera reclamava de simplesmente copiar o que vinha de fora, imitar. Acho que ai mora o grande problema de muitas coisas que vemos até hoje.
Quando se bate o olho em uma frase, em um foto, em uma música ele reflete em nós e gera uma outra coisa: um sentimento que passa por nós. Hoje, com o botão mágico do re-qualquer coisa, fico mais facil simplesmente ignorar essas parte que passa pela gente e simplesmente repetir para o mundo a informação igual ela veio do outro. E o outro não é apenas um CFA ou uma Clarice da vida, o outro é qualquer um!
Falta a essa nova geração de blogueiros o conceito de mote! rs
bjs e adoro o blog! XD
Iemai
maio 23rd, 2010
às 16:07
Exatamente, Bel! Os botão de “re” deixaram as pessoas preguiçosas e mudas. Eu acho bonito as pessoas divulgarem o trabalho dos outros e concordarem com suas idéias, mas a partir do momento em que elas esquecem de pensar com a própria cabeça… a coisa passa do limite. :/
Como o Oswald defendia, a gente precisa mesmo ser mais antropófago! Engolir o outro pra depois recriar!
Paula
Adoro como você tem conceito em tudo o que faz! Mandou muito com a citação no final, adorei a colocação paradoxal até meio sarcástica :)
Luana Pagung
Eu concordo, adoro Caio desde quando não conhecia quase ninguém que gostava, dificilmente via uma frase ou texto em fotologs/blogs, depois virou uma febre, é claro que não deixei de gostar por isso, ele continua sendo um dos meus autores preferidos, tanto que meu namorado só me dá livros dele de presente ¬¬ , mas cansa, e como cansa. Assim como aconteceu com Clarice, e com Shakespeare (lembra dessa época?). As frases postadas fora de contexto então, são as que mais cansam… eu posto Caio, Clarice, Drummond, mas é essencial “postar a si mesmo” também. Gostei Iemai, belo texto. :}
Lilian Britto
Ainda prefiro as frases retuitadas de CFA e Clarice Lispector do q Hugo Gloss e piadinhas bobas q leio lá a todo momento!
Adoro seu blog, muito bem escrito.
Linda semana =*