24
dez
2009

Um (longo) conto de Natal

25 de dezembro pode ter todos os significados do mundo, mas para as crianças tudo isso se resume à madrugada mágica onde Papai Noel deixa os presentes da forma mais sorrateira possível. Para Elise, os presentes sempre apareciam no sapato ao lado da cama. É óbvio que ela nunca soube explicar como o bom velhinho entrava em sua casa, mas quem queria saber?

Apesar de lembrar-se apenas de um carro, uma batida e uma explosão, naquele Natal não foi diferente. A pequena Elise acordou perdida no tempo e, no momento exato em que se lembrou que dia era, pulou da cama para achar seu presente. O embrulho colorido estava em cima do sapato que usara na noite anterior. Sem dar-se ao trabalho de abrir, saiu rasgando o papel e encontrou logo a caixinha pequena.

O velhinho acertara novamente. Era o relógio que queria! Teve apenas tempo o suficiente para colocar o relógio no pulso. Saiu gritando pela casa para mostrar o presente aos pais.

Na nossa história não importa muito aquilo que aconteceu entre o tempo de abrir o presente e o de finalmente parar para admirá-lo. Tudo que você precisa saber é que, quando Elise finalmente se aquietou e parou sozinha no seu quarto para olhar as horas, deu-se conta de que o relógio andava ao contrário. E ela sabia o que isso significava.

Nossa garotinha raciocinou muito mais rápido do que qualquer adulto. Elise não precisava da visita de nenhum Fantasma do Natal para entender o que estava acontecendo. Como num conto natalino, ela teria que aprender alguma lição… ou, agora que as lembranças que tivera ao acordar voltavam à mente, talvez tivessem dado a ela a chance de voltar por um dia.

Passaram por Elise naqueles pouco segundos um gelo, um desespero e, no fim, uma calma que só alcança as crianças. Apesar da pouca idade, já vira tantos filmes que sabia exatamente como as coisas funcionavam. A partir de agora, tudo seria encaminhado pela magia do Natal… E tudo que ela podia fazer era correr contra o tempo para ser feliz.

Com seu relógio anti-horário, Elise saiu pela casa a fim de cumprir sua missão. Tinha morrido. E essa era última chance de poder estar com seus pais, os sobreviventes.

Os pais, apesar de acordados, ainda estavam em seu quarto. A noite anterior deixara a ressaca e a preguiça de levantar. A menina não entendia, mas viu a oportunidade de começar sua história. Foi para a cozinha e, com sua limitada habilidade de criança, fez o melhor café da manhã que pôde.

A mãe riu-se ao encontrar a mesa posta. Sua menininha estava crescendo, e crescendo tão bem! Não deixara a amargura da vida domar nenhum pouco sua doçura. Rindo, a família estava reunida para começar o longo dia que viria contra a vontade do relógio.

Foram brincadeiras, abraços e declarações de amor pouco usuais que preencheram o último dia de vida da pequena Elise. Mas, pensando bem, era apenas o primeiro dia de sua morte. E agora, apesar de aproximar-se o fim, morrer parecia pouco tempestuoso.

Não vamos nos alongar muito. Você também deve conhecer histórias o suficiente para saber que a felicidade perfeita do Natal durou todo o dia para Elise, como só acontecem nas histórias mágicas. As lições de perdão e arrependimento preencheram o coração dos pais todas as vezes em que notavam como sua filha estava empenhada em fazer o Natal realmente acontecer. É claro que eles se lembraram o quanto estavam sendo duros uns com os outros e, muitas vezes, com ela. E perceberam a grande bobagem que era importar-se com coisas tão pouco importantes no dia-a-dia.

A inveja, a mágoa, o desejo de eterna superação, a ambição, a cegueira da vida podre se diluíra por horas suficientes a ponto de proporcionarem reflexão. Enfim, era Natal – e o fim do dia estava chegando. Elise via as poucas horas se esgotarem.

Às vinte para o fim do tempo, soube que era a hora de despedir-se. Não gostava de como a maioria das histórias deixavam as pessoas perdidas sem saber o que realmente acontecera. Queria deixar tudo claro. Queira que seus pais soubessem da mágica!

Correu para os braços dos pais chorando. Desesperados, eles não entendiam o porquê da alegria ter se tornado repentinamente tanta tristeza:

- Mamãe, Papai, pode parecer loucura… mas meu tempo está acabando. Eu morri ontem no acidente de carro, mas o Papai Noel me deu uma última chance de estar com vocês. Não sei o que pude ensinar hoje, mas queria que soubessem que amo vocês. Simplesmente amo, e pouco importa o que vai acontecer depois. Fiquem fortes, amando.

Uma boa história de Natal acabaria aqui. Com beijos e abraços de reconforto. Mas essa não é uma boa história de Natal. E os pais de Elise não entenderam nada. Custou muito compreender que a menina entendera tudo errado. Dormir com a televisão ligada subira à cabeça de Elise, o filme fizera mal à pequena.

A mãe teve que explicar que o relógio era daquele jeito apenas por diversão. E que além de “andar para trás”, ele também “andava pra frente”, e piscava, e mostrava imagens coloridas e fazia sons, e tudo o mais. Era um brinquedo, no final das contas.

É claro que não fez muito efeito no início. Mas quando o relógio passou do tempo e continuou girando, a menina entendeu que nada iria acontecer. A vida continuaria normal.

Elise foi dormir emburrada. O Natal a traíra.

Pode demorar muito tempo para que a pequena Elise compreenda, mas a lição talvez venha mais rápido para você que teve a paciência de conhecer esta história. Não há necessidade de irritar-se com o Natal porque ele não é perfeito e nem acontece como nos filmes.

É muito provável que você se lembre apenas de um ou dois natais que realmente valeram a pena em sua vida. E você provavelmente carrega um peso toda vez que chega essa época do ano. Ao invés de ser a época em que você se redime, é a época em que mais se afunda em descontentamento e inconformidade com o mundo que você mesmo ajuda a construir.

Dê uma chance ao Natal, ou melhor, dê uma chance à vida. Quem sabe aí, tanto você quanto Elise, poderão compreender que pouco importa se há fatos sobrenaturais ou não, a maior magia que existe é simplesmente poder viver todos os dias. Aprender isso de verdade pode ser praticamente impossível, mas contanto que você se lembre, pelo menos uma vez por ano, exatamente qual é a magia de estar vivo… você vai entender que o maior milagre que qualquer Natal pode proporcionar é o milagre de existir.

Fantástico mundo da Emi
2 comentários
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2 comentários em Um (longo) conto de Natal


  1. Myllena
    25 dez 09 às 7:02

    Boa, Emi. Um tapa na cara de Natal.


  2. Mariana
    25 dez 09 às 21:29

    Emi você sempre me impressiona, suas fotos, seus textos… Tudo! Devo dizer que nunca comento em blogs, mas fui obrigada a fazer isso agora. Simplismente amei. Sou sua fã, rsrs :D Você me inspira concerteza, mais uma vez ameei!

    Feliz Natal! :DD

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