06
mar
2009

Se ela fosse um peixinho

Peixe - Tancredo Neves, Vitória da ConquistaDébora era pequena e sem ritmo. Sem ritmo, entenda, não era falta de atividade, mas sobra. Sobrava tanto movimento na pequena que não havia ritmo nenhum, só bagunça, só zuada. Naquele dia, o céu estava limpo e a tarde estava bem no meio.

O céu azul, jurava a menina, só poderia ter um propósito: era tática de mãe para manter criança distraída. Quando Débora olhava para aquela “azulidão” toda só sentia vontade de brincar de ser peixe. Era peixe em toda tarde de sábado e em todo feriado de calor. Era nos sábados porque, jurava ela, nunca tinha visto um 7º dia sem céu limpo – apesar de todos só não discordarem disso para não sofrerem com sua teima. E, nos feriados, porque dia de semana tinha escola e na escola ninguém mais queria ser peixe como ela.

Só que, naquele carnaval, Débora decidiu que venceria. Ia trapacear. Não ia ser peixe e iria descobrir o que sua mãe tanto queria esconder dela. Como seria, afinal, o calor de verdade? Hoje esse mistério acabaria. Não olharia o céu, e, se por algum acidente, seu olhar cruzasse a falta de nuvens, ela ia fazer de conta que era tudo bege. E bege era feio, feio, e parecia grama seca, que dá coceira na gente.

Foi para o quintal determinada. Sol de três da tarde. Fugiu do protetor solar. De repente, o mundo parecia muito mais horizontal, e aquela falta de verticalidade abria mil chances. Hoje Débora ultrapassaria os limites da azulidão. Pulou o cimento e correu livre pelo quintal gramado… corria com a velocidade das meninas, que, nessa idade, é bem mais rápida que a velocidade da luz – e, não conte para ela, bem menor que a velocidade dos meninos. Correu. Correu. Correu. Rolou, caiu, machucou-se, chorou, deu berro, esqueceu, correu mais, pulou, gritou, girou, sujou.

Débora não parava um segundo. E o sol foi esquentando, e sua pele foi esquentando e, bem aos pouquinhos, as gotas começaram a descer por sua testa. E Débora se sentia vermelha – meio camarão, mas camarão não era peixe, por isso era válido. Mas tudo foi ficando esquisito, e tudo meio molhado. Ela não sabia o que estava acontecendo e continuava com sua meta. E Débora foi correndo, e logo corria mais devagar, e logo achava que estava ficando para trás, e logo estava mesmo. Ela não parou, e parecia meio suco. Sem ser peixe, Débora derreteu.

(e sinto que eu terei esse mesmo futuro se o clima não melhorar logo!)

Fantástico mundo da Emi
8 comentários

8 comentários em Se ela fosse um peixinho


  1. Fernanda N
    6 mar 09 às 17:33

    oi emi!
    tudo bom???
    vocês por aí sofrendo com este calor danado e eu aqui no canadá passando um frio danado!! mas tudo bem!! acho que talvez na semana que vem o tempo aqui já começa a esquentar!! e cuidado, você aí para não derreter igual a débora, hein??

    beijocas!!


  2. Anny
    6 mar 09 às 18:41

    Meu deus que crônica linda *-* adorei da maneira que você escreve, já sou fã de blogs cult! :)
    Seu theme é super diferente também ^^
    Beijão ;*


  3. Jarbas
    7 mar 09 às 1:16

    amo você!
    adorei o texto. Curitiba tem estado quentíssima, também.

    saudades.
    beijos.


  4. Robbie Jacks
    7 mar 09 às 9:16

    Uhauhauhaua, coitada da Deby! Mas sim, você tem uma maneira linda de escrever. Não me canso de vir aqui! Que pena que vc saiu do TDB…


  5. Ray-Sama
    7 mar 09 às 14:45

    Aloha!

    Nuss, acho que é isso o q está acontecendo com uma pá de gente nesse calor. Se bem que deu uma melhoradinha. Inha!

    ***

    Pois é, também acho q ler vários ao mesmo tempo tira o foco de um, aí vira uma bagunça só!
    *Mas não foi o Robinson que foi pra Índia e o Vasco da Gama pro Brasil?*

    Aloha!


  6. Giordana
    7 mar 09 às 17:50

    Hoje é sábado e é o primeiro dia nublado em muito tempo…. já até começou a cair umas gostas de chuva!


  7. Michele
    7 mar 09 às 19:04

    Débora era na verdade de porcelana.


  8. Débora
    1 nov 09 às 11:15

    Sorte que não sou essa débora G_G

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