Acho vergonhosa a participação da mídia no Caso Eloá. Para mim, toda essa história lembra por demais – e não me importo que soe clichê – o filme O quarto poder (Mad City, 1997, Costa Gravas). Tanto na vida real quanto na ficção, o desfecho trágico do seqüestro ocorre, principalmente, por causa da interferência dos jornalistas e dos envolvidos externamente no caso. A presença de repórteres dialogando com o assassino em potencial, a cobertura escandalizada, o interesse popular sendo aguçado – são todos elementos passíveis de serem relacionados com a história do filme.
O mais interessante, no entanto, é que aqueles que são em parte causadores de tal desfecho procuram culpados como quem procura ouro: deslumbrados e pretensiosos, muitos jornalistas já culpam a ação da PM sem nem ao mesmo enxergarem as imposições que causaram as suas próprias ações (ou talvez estejam enxergando muito bem e notando a importância de tentar cobrir seu próprio erro usando o possível erro dos outros). Afinal de contas, não é muito mais interessante culpar a polícia e abrir leque para mais uma série de discussões do que culpar de uma vez por todas o “apaixonado” seqüestrador que parecia não ter noção real de seus atos? Não é mais interessante criar suspense em torno dessas perguntas que só serão esclarecidas posteriormente, com as declarações de Nayara?
É impossível não perceber que a necessidade de ampliar o fato, de conduzí-lo para a grande matéria, interfere em toda a situação, inclusive no psicológico do seqüestrador. Assim como Sam Baily, Lindemberg pode ter perdido o controle de si mesmo ao perceber o contexto grandioso que tomava tudo em que havia se envolvido. A constante cobertura da mídia era acompanhada dentro do apartamento em Santo André e, pode tanto ter problematizado ainda mais uma situação que já seria grave, quanto ter criado a maior parte da gravidade dela. Além disso, a presença dos jornalistas e a possível repercussão de qualquer decisão, pode ter também influenciado a ação dos policiais. Todos sairão dessa situação com muitas perdas e bastante envolvidos judicialmente, exceto, é claro, esses “profissionais” que, ao meu ver, participaram ativamente, e, diga-se de passagem, muito irresponsavelmente, no caso.
É, todavia, comum esse tipo de reação tanto da mídia quanto dos que analisam a ação dela perante casos complicados e de grande notabilidade. É comum fazer, e é comum falar mal do que está sendo feito. Os grandes veículos parecem precisar cada vez mais de casos estrondosos, e aqueles que buscam alcançar a sua importância aprendem que esta é a forma única ou mais correta de cobertura. Os jornalistas esperam sedentos, todos os dias, por Isabelas e Nardonis, Elóas e Lindembergs… E não apenas eles, como também os acadêmicos, os analistas, os críticos ou, simplesmente, os espectadores.
Já é costumeiro: a maioria, de início, procura manter suas imagens de bons moços. Usam nomes fictícios para menores, não exibem fotos e mostram-se frios enquanto, na verdade, sua equipe corre ávida em busca de mais informações para transformar o pequeno em grande. Quando percebem que o assunto está fervendo e que as pessoas estão cada vez mais interessadas, tudo isso vai caindo: o nome aparece, as fotos tornam-se mais um meio de mobilização sentimental e o caso vai tomando dimensões gigantescas.
Claro, há também o extremo dos sensacionalistas que faz o caso crescer mais rápido do que o imaginado, aproveitando-se das características da situação desde o início para tentar construir essa relevância social. Aliás, é perceptível que se tenta, todos os dias, em vários veículos, impor a vários acontecimentos essa mesma importância. Quando conseguem, e foi isto que houve no Caso Eloá, deliciam-se e comemoram; passam páginas, programas, textos, horas e minutos desenrolando a mesma história.
Renato Russo, ao cantar Metrópole, estava certíssimo: “Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre”.
PS.: Tente assistir isso (entrevista com Lindemberg no A Tarde é sua, da Sônia Abrão) e isso (O quarto Poder) e depois me diga se você não sentiu o mesmo sentimento de raiva e desespero, não pensou da mesma forma sobre a crise de impunidade da mídia e, principalmente, se não se perguntou “PQP! Que mundo é esse?”.



















Amanda /mandyfreak
Não acompanhei o caso da Eloá desde o início e vou ser sincera: sou ligeiramente alienada. Mas tem motivo, calma: tudo que se ouve nos telejornais é morte. Cansei de ouvir má notícia, se for importante procuro pela internet, de vez enquando até abro o jornal depois da academia, mas me nego a sentar na frente da televisão e ouvir notícias sensacionalistas só porque todo mundo diz que é o que devemos fazer.
O caso da Eloá foi uma situação triste que ganhou atenção exagerada, você tem mais do que razão nesse ponto. A mídia engoliu esse caso com voracidade, aparentemente o ibope estava baixo (talvez a crise econômica estivesse enjoando os telespectadores… muitos gostam de ouvir “sangue!”)… não sei.
Talvez sim, “nós a matamos”. Talvez não. O rapaz realmente tinha uns parafusos soltos. Li no jornal os depoimentos da Nayara (aliás, aqui sinto muito, critico a PM sim, porque devolver a menina ao cativeiro foi a pior idéia que poderiam ter), talvez o garoto fosse de má indole desde o início e ninguém desconfiava…
Ah, não sei. Haha, fico perdida quando falo dessas coisas porque me vem muita coisa na cabeça e não sei organizar esses pensamentos numa ordem lógica…. mas vou ter que concordar com a mídia, viu: a polícia não fez seu dever corretamente. Havia maneira de derrubar Lindemberg desde o início e foi preciso 100 horas de sequestro e disparos de arma pra polícia fazer algo de atitude (fora devolver a Nayara, atitude negativa no caso).
Emi, tudo é relativo. Mas você tem razão. Se seu ponto era dizer que a mídia anda faminta e sanguinária, eu concordo plenamente.
Mas não sei porque, algo me diz que ela sempre foi assim…
Iemai
outubro 22nd, 2008
às 6:21
Pois é, Mandy, não digo que a polícia agiu corretamente ou qualquer coisa assim porque não entendo nada desse assunto, mas coloco em dúvida a “moral” que a mídia tem para ficar criticando as atitudes dos policiais enquanto as deles foram tão vergonhosas. É como aquele ditado do sujo falando do mal lavado… Mas, no fim das contas, se eles não questionam, ninguém questiona e tudo fica impune e inerte. É complicado.
O “Nós a matamos” foi mais uma referência ao filme mesmo do que uma sentença de culpa a quem quer que seja.
De qualquer maneira, infelizmente (ou não – já que todo mundo adora um barraco ou um caso desse), como você disse, foi e vai ser sempre assim.
Orebas
(só pra não parecer que eu surgi do nada, eu visito seu blog todo dia mas nunca comentei XD)
Eu tenho que te dizer que eu achei que tinha sido a única a comparar esse caso com O Quarto Poder…eu realmente acreditei que a única coisa que faltava era um jornalista fazer a assessoria do Lindemberg…estava chegando bem perto disso. Sem contar todo o fato sensacionalista de dizerem que a Eloá queria trabalhar na Record e usar aquela situação como forma de oportunidade…até onde isso é verdade? O quanto isso muda a visão da sociedade encima da figura que fizeram dessa menina? (infelizmente não muda nada, e a imagem de santa que montaram para a Eloá está me irritando)
Eu também faço jornalismo e a única coisa que eu acho absurda nessa situação toda é o desejo mútuo da mídia e da sociedade em ver o circo pegando fogo. Colocando referência pop nesse comentário pobre, “algumas pessoas só querem ver o circo pegar fogo”, e todo mundo adora ter quem culpar e ter com o que se revoltar. E nem é mais uma fuga da realidade, é hobby.
Em suma: não só a matamos como também achamos bonito quando o caixão branco foi fechado. Coisa de poesia mesmo.
Iemai
outubro 24th, 2008
às 18:06
@Orebas, Isso mesmo. Acho que para todo mundo que não está envolvido qualquer uma dessas histórias funciona mais como filme, uma ficção interessante, do que como uma realidade a ser analisada… :/
Engraçado que quando eu fiz essa relação com o Quarto Poder para o meu irmão ele comentou a mesma coisa (que achava que era o único). Isso mostra que tem lógica mesmo, ó.
Fernando
As pessoas olham de mais pra TV e se esquecem dos espelhos.
Jogamos o ser de cima do prédio e choramos o absurdo da situação (quem poderia ter feito tal barbaridade? :O)
;**
Jarbas
não aguento mais ouvir falar de eloá.
Anna
Mais uma vez a mídia e o Estado geram o que chamo de “pânico geral”. Antigamente, a população tinha acesso a um desastre, como exemplo, um enforcamento na praça pública, com o passar do tempo os meios estão mais “eficientes”.
Talvez, a culpa não esteja somente nos meios, ou, no Estado, afinal muita gente adora assistir o circo pegar fogo.
Você já parou pra pensar na importância que damos alguns fatos e à outros simplesmente nos acostumamos? por exemplo, pessoas que morrem na miséria. que morrem de fome.
é… isso aqui é o próprio inferno como diria minha avó.
ps.: o seu blog sempre encantador.
Mary
Que blog lindo *_*!
Vou te linkar.
Olha vamos falar a verdade, essas coisas absurdas como o bandido dar entrevista em vários canais de tv só aconteceram pq os envolvidos eram pessoas humildes do ABC.. infelizmente, a própria polícia pode ter tratado com desdem o caso.. o cara falava igual um marginal, como pode negociar com uma pessoa dessa?
Eu já não aguento mais esse caso..
bjos
Karen
Primeiro parabéns!!!! seu blog é lindo, quem fez?? me manda um email nossa ta lindo mesmo
e segundo queria comentar do post, aqui no brasil todo mundo gosta de fazer das coisas circo =(
Iemai
outubro 24th, 2008
às 18:11
@Karen, Muito obrigaada! :) Fui eu mesma que fiz…
Michele
Emi, engraçado que eu escrevi um texto com o titulo “Eu, voce e todos nós matamos Eloá”. Só não publiquei. É muito, muito parecido com esse seu, mas muito mais revoltada. Quando eu liguei a TV e vi o apresentador do Hora News conversando com Lindenberg, juntoui com todas as outras coisas e desabei de chorar. Liguei pra Tulio aos prantos com vergonha daquilo que mais prezo, minha profissão. E todo mundo achando queeu tava chorando com pena da menina. Tenho pena é de todos nós. Pena e vergonha.
Parabéns pelo texto, acho que vou até publicar o meu agora.
Beijos.
brune
putz tava lendo isso tudo ai e me lembrei desse caso…eu nao aguentava mais
e outro a menina tbm nao era nenhuma santa mereceu morrer quem manda ser idido ela foi uma vgabunda mirim mereceu bem feitoo…….
aashsuashaushau